Cara a cara com serpentes: os bastidores de quem fotografa alguns dos animais mais temidos

  • 26/05/2026
(Foto: Reprodução)
Ao longo dos anos, a profissão já levou Ramon a 22 estados brasileiros Ramon Cavalcanti Há quem saia para a mata em busca de aves raras, outros preferem observar primatas ou grandes felinos. Mas o biólogo e herpetólogo Ramon Cavalcanti escolheu um grupo de animais que ainda desperta medo em muita gente: as serpentes. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp E garante que, na maior parte do tempo, elas estão muito mais interessadas em fugir do que atacar. “Procurar serpentes é aceitar a imprevisibilidade”, resume Ramon, que atua na área de consultoria ambiental e participa de estudos de impacto ambiental em diferentes regiões do Brasil. Cascavel (Crotalus durissus) Ramon Cavalcanti No trabalho de campo, ele precisa registrar o maior número possível de espécies de serpentes encontradas em uma área. A fotografia começou como ferramenta técnica, necessária para documentar os dados das campanhas ambientais, mas acabou se tornando também um hobby. Ao longo dos anos, a profissão já o levou a 22 estados brasileiros, principalmente pela Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal. Jiboia arco-íris (Epicrates cenchria) Ramon Cavalcanti VIU ISSO? Marsupial escondido há milhões de anos é descoberto em fragmentos da Mata Atlântica no RJ A teia invisível: como uma rede de fungos conecta e mantém viva a flora do Cerrado Cerrado: a 'floresta invertida' que guarda o segredo das águas e do clima no subsolo Muito além do susto Ao contrário do que muita gente imagina, encontrar uma serpente na natureza raramente significa viver uma cena de confronto. Segundo Ramon, experiência e observação ajudam a entender os hábitos de cada espécie, os ambientes onde costumam aparecer e até os sinais de comportamento antes de qualquer aproximação. Sucuri (Eunectes murinus) Ramon Cavalcanti “Você aprende quais microhábitats observar, horários mais favoráveis e como determinadas espécies reagem. Mas ainda assim encontrar serpentes continua sendo algo extremamente imprevisível. Acho que essa é justamente a parte fascinante”, conta. Algumas espécies permitem aproximações maiores. É o caso das serpentes da família Boidae, como jiboias e sucuris, que costumam apresentar comportamento menos defensivo. Jiboia-do-ribeira (Corallus cropanii) Ramon Cavalcanti Já espécies como jararacas, cascavéis e surucucus tendem a ser mais responsivas no primeiro momento. “Com o tempo e a experiência em campo, o pesquisador aprende a interpretar os sinais de comportamento das serpentes, entendendo quando o animal está mais tranquilo, tentando se afastar ou demonstrando desconforto com a aproximação. Essa leitura ajuda a tornar o registro fotográfico mais seguro e reduz o estresse causado ao animal”. Mesmo assim, ele faz questão de reforçar: esse tipo de aproximação acontece dentro de um contexto profissional, com experiência e autorização ambiental. Jararaca-do-norte (Bothrops atrox) Ramon Cavalcanti “Manusear animais silvestres pode trazer riscos tanto para a pessoa quanto para o animal. Não é algo para alguém simplesmente tentar reproduzir”. A foto nem sempre mostra a distância real Algumas imagens feitas por Ramon dão a sensação de que o fotógrafo estava a poucos centímetros da serpente. Mas ele explica que nem sempre é assim. Grande parte desse efeito acontece por causa das lentes utilizadas. “Dependendo da distância focal, a imagem passa uma sensação de proximidade muito maior do que realmente existia”. Cascavel albina (Crotallus durissus) Ramon Cavalcanti Segundo ele, mais importante do que conseguir a foto perfeita é entender o limite ético daquele encontro. “Mesmo quando o animal parece permissivo, não é interessante prolongar demais o momento. Sua presença ali já representa uma interferência no ambiente dele”. Suaçuboia (Corallus hortulanus) Ramon Cavalcanti O encontro com a surucucu Entre tantas histórias vividas em campo, uma das mais marcantes aconteceu em novembro de 2024, em Jacareacanga, no Pará. Ramon encontrou uma surucucu-pico-de-jaca (Lachesis muta), considerada a maior serpente peçonhenta das Américas. A espécie pode ultrapassar três metros de comprimento e habita áreas preservadas de florestas tropicais, especialmente na Amazônia e em trechos da Mata Atlântica. De hábitos predominantemente noturnos e discretos, a surucucu costuma passar boa parte do tempo escondida entre folhas secas no chão da floresta. A camuflagem perfeita faz com que muitos encontros aconteçam apenas quando o animal já está muito próximo. Surucucu-pico-de-jaca (Lachesis muta) Ramon Cavalcanti Apesar da fama intimidadora, a espécie não é conhecida por ataques sem motivo. Assim como outras serpentes, tende a agir de forma defensiva quando se sente ameaçada. O bote, no entanto, exige respeito: o veneno da surucucu é potente e pode causar sintomas graves. O nome “pico-de-jaca” vem justamente do aspecto das escamas na ponta da cauda, que lembram a textura da casca da fruta. Mas o que mais impressionou Ramon naquele encontro não foi agressividade. “Existe um peso naquele encontro que é difícil explicar. Foi parecido com alguns encontros que tive com onça-pintada: você percebe claramente que está diante de um predador totalmente adaptado ao ambiente dele.” Segundo ele, o impacto vem menos da agressividade e mais da presença do animal na floresta. Grande, silenciosa e extremamente eficiente no ambiente onde vive, a surucucu carrega uma imponência difícil de descrever. O respeito falou mais alto. Ramon preferiu manter distância e adaptar a estratégia das fotos. Veja o que é destaque no g1: Agora no g1 O dia em que a fotografia ajudou no hospital Nem todos os encontros terminam apenas em contemplação. Em junho de 2023, durante um trabalho em Miritituba, no Pará, Ramon sofreu uma mordida de uma coral-verdadeira-aquática (Micrurus surinamensis) após se afobar durante um registro. A espécie é considerada uma das corais verdadeiras mais impressionantes da Amazônia. Diferente da maioria das serpentes do grupo, que vivem em áreas secas ou subterrâneas, ela possui hábitos semiaquáticos e costuma aparecer em rios, igarapés e áreas alagadas da floresta. Com corpo alongado, coloração em anéis pretos e avermelhados e comportamento discreto, a coral-verdadeira-aquática é altamente adaptada ao ambiente aquático e se alimenta principalmente de peixes e pequenos animais aquáticos. Apesar do tamanho relativamente pequeno, o animal merece atenção. Corais verdadeiras pertencem ao grupo das serpentes elapídeas, o mesmo das najas e mambas africanas, e possuem veneno neurotóxico, que atua diretamente no sistema nervoso. Coral-verdadeira-aquática (Micrurus surinamensis) Ramon Cavalcanti “O clima mudou instantaneamente”, relembra Ramon. Antes de seguir para o hospital, a cerca de uma hora e meia dali, ele fotografou o animal. A imagem acabou sendo importante depois: no hospital, profissionais chegaram a duvidar que se tratava realmente de uma coral verdadeira, justamente pela raridade da espécie e pelo fato de muita gente nunca ter visto uma da Amazônia. Durante horas, Ramon permaneceu em observação aguardando possíveis sintomas de envenenamento. Mas eles não vieram. A mordida havia sido um “bote seco”. O termo é usado quando a serpente ataca, mas não injeta veneno. Isso pode acontecer por diferentes motivos. Em muitos casos, o bote funciona apenas como mecanismo de defesa e o animal “economiza” veneno, já que a produção da toxina exige gasto energético importante. “Minha teoria é que ela provavelmente tinha acabado de se alimentar de peixe pouco antes do encontro”, conta. Depois de cerca de seis horas de observação médica, veio o alívio: ele estava fora de perigo. Hoje, Ramon encara o episódio como uma mistura de susto, aprendizado e respeito ainda maior pelos animais que fotografa. E também como uma lembrança de que serpentes não são criaturas violentas à procura de confronto. Mesmo em situações extremas, o comportamento delas costuma estar muito mais ligado à defesa do que ao ataque. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/05/26/cara-a-cara-com-serpentes-os-bastidores-de-quem-fotografa-alguns-dos-animais-mais-temidos.ghtml


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