Menino indígena que percorre cerca de 16 km para treinar conquista 3º lugar em torneio regional: 'Me sinto orgulhoso'
26/05/2026
(Foto: Reprodução) Menino indígena que percorre cerca de 16 km para treinar conquista 3º lugar em torneio
O esporte exige mais do que disposição física: envolve disciplina, dedicação e superação diária. Seja no futebol, nas artes marciais ou em outras modalidades, também se torna uma forma de valorizar histórias, culturas e identidades. Para um menino indígena de Barão de Antonina (SP), o esporte representa ainda a oportunidade de reforçar a importância da representatividade.
Aos 11 anos, Bryan de Oliveira Lima, conhecido pelo nome indígena Awa Tawidjú, chamou a atenção ao subir ao pódio usando um tradicional cocar após participar de uma competição realizada em Capão Bonito (SP), em 17 de maio. O evento reuniu cerca de 400 atletas.
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“A competição foi muito legal. É muito importante participar sendo um indígena. Eu acho um esporte legal. Eu não me sinto diferente [por ser indígena], mas eu me sinto orgulhoso”, comemorou o menino.
Jovem indígena conquista pódio em competição regional de Judô
Arquivo pessoal/Ronald Natan de Lima
Essa foi a primeira vez que Bryan participou de uma competição — e já conquistou o 3º lugar no pódio. O pré-adolescente treina em uma equipe de Itaporanga (SP) e percorre cerca de 16 quilômetros, pelo menos três vezes por semana, para conseguir se dedicar à modalidade.
“Eu ganhei três lutas e fiquei em terceiro lugar. Eu vou continuar competindo, a próxima competição é em Tatuí mês que vem. Vou tentar o primeiro lugar dessa vez. Eu fiquei feliz porque a minha mãe falou um dia antes que se eu subisse no pódio, ela ficaria feliz. Eu consegui o que queria, que era subir no pódio”, disse Bryan.
Trio de crianças estudantes na aldeia Txondaro em Barão de Antonina (SP)
Pâmela Beker/g1
Após passar cinco anos afastado da modalidade, Bryan decidiu retomar a prática do esporte em junho do ano passado. Menos de um ano depois do retorno, veio a conquista do primeiro pódio. Para ele, porém, o esporte vai muito além das medalhas.
“Eu fazia quando tinha 5 anos. Ano passado eu voltei. Mas eu comecei porque achava legal e já gostava. O que eu mais gosto de fazer no judô é lutar e fazer amizades”, compartilha.
Orgulho da família
Familiares e amigos estiveram presentes no dia da competição. Ronald Natan de Lima - Awa Mboka -, é pai de Bryan e cacique da aldeia Txondaro Tekoá M’bae, que em tupi-guarani significa “aldeia dos guerreiros”, em Barão de Antonina.
Ao g1, ele contou que também já praticou judô e que, hoje, se realiza ao acompanhar as conquistas do filho.
“Tudo isso foi muito gratificante. É um esporte gostoso. Ele pegou o gosto e aí falamos: ‘vamos levar ele para competir’. O coração ficou na mão, a primeira luta com um pouco de medo, mas deu tudo certo”, disse Ronald.
Estudioso, caseiro... e competitivo. Para Ronaldo, o filho vem conquistando cada vez mais confiança para enfrentar os desafios das competições.
“Ele é ‘sossegadão’ e nada dele, mas dentro do tatame, é outro Bryan”, analisa o pai.
Bryan celebrou a conquista do pódio na competição de Capão Bonito ao lado dos pais
Arquivo pessoal/Ronald Natan de Lima
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Orgulhoso de sua origem, Bryan conversou com o g1 no ano passado sobre a rotina em uma comunidade índigena. Para o pai, além de ensinar o básico da vida, o menino é orientado a não se amedrontar diante de olhares curiosos ou até preconceituosos.
“É uma mistura de cultura, né? O judô, uma luta oriental e aí vem também a cultura indígena brasileira. Para nós, é importante ver que o indígena está se encaixando para fora e no mundo da luta o pessoal reconhece isso."
Conforme o Censo 2022 do IBGE, Barão de Antonina ocupa a terceira posição em número de indígenas no estado e abriga 134 pessoas autodeclaradas indígenas, o que representa 3,79% da população local.
Primeiro atleta federado na região
A Federação Paulista de Judô (FPJudô) informou que Bryan é o segundo atleta indígena filiado à federação no estado de São Paulo e o primeiro na região de Itapetininga. Para a federação, a conquista do atleta na categoria é um marco.
“Recebemos com entusiasmo a filiação de um atleta indígena à federação, algo inédito para nós em São Paulo, e consideramos essa inclusão de grande importância, pois reforça nosso compromisso com a diversidade e a representatividade de todas as etnia”, disse Takeshi Yokoti, vice-presidente da FPJudô.
O técnico Marcus Vinícius Castilho, da Academia Centro de Artes Marciais de Itaporanga, afirmou que a participação de Bryan representando a própria cultura dentro do judô é motivo de orgulho para toda a equipe.
“O esporte tem o poder de unir histórias, valores e tradições, e a presença dele no tatame mostra exatamente isso. Tive também a honra de ser professor do pai dele, o cacique Natan, quando treinava judô em um projeto social da região. Hoje, poder acompanhar o filho dele dando continuidade nessa caminhada dentro do esporte é algo muito especial e emocionante para todos nós."
A federação também ressaltou que busca reforçar o compromisso com o esporte como ferramenta de inclusão social, valorização cultural e respeito à diversidade, abrindo espaço para que atletas de diferentes origens encontrem no judô uma oportunidade de desenvolvimento pessoal, técnico e humano.
O FPJudô informou que o jovem é o primeiro indígena da sua região filiado à federação
Arquivo pessoal/Ronald Natan de Lima
*Colaborou sob a supervisão de Larissa Pandori
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